01
Nov 12
Quando vejo no lugar da fruta da minha rua as senhoras de idade que deitam contas aos cêntimos – aos cêntimos, não é aos euros! – antes de se atreverem a comprar duas peras pequenas, tenho por elas respeito e pena. Mereciam melhor.
Quando vejo debaixo das árvores do jardim do bairro os reformados setentões que gastam numa bisca sem fim os dias que lhes faltam porque essa bisca é o único divertimento que a curta pensão de reforma lhes consente, tenho por eles respeito e desgosto. Mereciam mais.
Na fila da caixa do supermercado a mãe de meia-idade à minha frente devolve uns chocolates baratos: na hora de pagar as contas não bateram certas. As crianças que iam comer aqueles chocolates mereciam um mimo que não tiveram.
Por todos estes que vivem uma crise que não provocaram só posso ter respeito e pena: não foram eles que pediram emprestado o dinheiro quer Portugal agora não consegue pagar.
Mas não são eles que eu vejo diante de São Bento a mostrarem as mamas e o rabo: são os trintões armados de ipods e de smartphones pagos pelos paizinhos burgueses que votam PS. São os “estudantes” de trinta e muitos anos, munidos de diplomas sem valor, comprados a tantos euros a valência, que aplaudiram o “país rico e moderno” construído pelo guterrismo e pelo socratismo, o país que nos arruinou: o país das auto-estradas a dobrar, dos aeroportos sem aviões, dos magalhães ao quilo, das PPS’s para os amigos do PS, das negociatas que dão direito a exílios dourados em Paris. São os “jovens” do rock-in rio e do super bock super rock, que não faltam a um concerto da Madona e vivem em casa e à custa da geração à rasca: a dos pais deles.
São a geração que não faz nada e exige tudo. Que acha que tem direito aos impostos de quem se esforça e trabalha mas não quer dar nada em troca. Que protesta porque não tem emprego mas se recusa a trabalhar com as mãos: gestor para mim, ferramenta ou balcão para os imigrantes.
Crise? Sim, crise para quem já vivia numa crise. Crise para a senhora das peras, para os reformados de 300€ ao mês, para a dona de casa que conta os cêntimos na caixa do Lidl.
Mas não me venham com a crise dos outros: dos que querem tudo sem ter direito a nada. Dos artistas falhados que querem o subsídiozinho para a sandes no Gambrinus, dos estivadores com salários de mais de 4000€/mês, dos indignados que vivem à custa dos pais porque se furtam a trabalhar, escondidos atrás de um diploma sem valor.
Crise foram os tempos dos anos ’80. Esses foram realmente tempos difíceis. Para quem teve de emigrar à força e para quem cá ficou depois da loucura comunista-gonçalvista do PREC que destruiu para largos anos a economia da País. Foi preciso o FMI deitar-nos a mão para se conseguir sair do buraco financeiro e do marasmo económico. A inflação chegou aos vinte e tal por cento, o escudo desvalorizava todas as semanas e os super mercados tinham as prateleiras vazias. Faltava quase tudo. Tempos difíceis esses anos oitenta…
Dizem agora que a austeridade dói. Bem… Pode ser que sim, mas a austeridade forçada dos anos oitenta, que o Sr. Soares agora tão convenientemente esquece, era pior: a desvalorização do escudo cortava os salários e a inflação encolhia-os. A palavra austeridade era desconhecida, mas ela ia-te ao bolso todos os dias: cada vez ganhavas menos.
Mal comparado aqueles tempos, para quem emigrou e para quem cá ficou, foram tempos bem mais difíceis que os de agora. A geração que os viveu, essa sim, estava à rasca. Mas esforçou-se, sofreu e esperou por um tempo melhor. Depois, não quis que os seus filhos passassem pelo mesmo e tentou dar-lhes tudo o que podia: universidade e dinheiro. Fez mal: a “universidade” era uma burla e o dinheiro fácil deu-lhes maus hábitos.
E agora estão outra vez à rasca porque esses filhos, em vez de enfrentarem as dificuldades e se esforçarem para sair delas, continuam a pedir aos pais o pão e o ipod de cada dia e exigem do Estado o que não existe, exibindo a anatomia nas escadarias de São Bento. Geração à rasca? Esta? Não. Geração de calimeros preguiçosos…
publicado por malcomparado às 15:15

24
Jul 12
No verão de 1975, empurrados pelo PCP através da correia de transmissão das comissões de trabalhadores, saíram de Portugal cerca de quarenta mil quadros superiores e médios. De todos os sectores: do primário (graças à euforia revolucionária da reforma agrária que tantos progressos trouxe à agricultura nacional); do secundário (pelo saneamento selvagem dos técnicos, deixando nas mãos milagrosas dos operários o planeamento e a correspondente falência das empresas); e do terciário (pela nacionalização da Banca, promovendo os caixas a directores e os sindicalistas a administradores, com os fulgurantes resultados que proporcionaram, alguns anos mais tarde, a visita turística do FMI).
Levando as famílias consigo, para o Brasil, para Espanha, para Inglaterra, para onde puderam, foram mais ou menos cento e sessenta mil (160.000!) pessoas, do melhor que havia em termos de competência e preparação, que abandonaram o País. A essa geração ninguém sugeriu que emigrasse: o PCP forçou-a a emigrar. Segundo Cunhal esses fascistas, lacaios do capitalismo, não faziam cá falta nenhuma.
Foram saindo, preocupados, receosos, mas conscientes de que eram capazes de ganhar a vida em qualquer lado – ao contrário dos pc’s que os tinham expulsado e que na grande maioria não eram capazes de ganhar a vida em parte nenhuma sem a muleta do paizinho Estado… Mas também com algum alívio: já não teriam que aturar as ladainhas esquizofrénicas do camarada Vasco…
Partir para um país estrangeiro, com a família a reboque, uma mão à frente e outra atrás, para recomeçar praticamente do zero, com trinta e muitos anos, com quarenta, uma carreira profissional, sem o apoio dos pais e dos avós que cá ficavam, sem as ligações de profissão e de curso, sem relações pessoais, não era fácil. Passar do andar de cinco ou seis assoalhadas nas Avenidas Novas ou em Belém (e não estou a falar do pessoal de topo…), com criada interna, para um T2 nos arredores de Madrid ou de São Paulo, sem ajudas domésticas, doía. Para as crianças então, tudo era drama: novas escolas, colegas que falavam outra língua, a perda dos amigos, a ausência dos avós e dos tios…
Mas era preciso. E essa gente enfrentou a vida, recomeçou carreiras, trabalhou – e na grande maioria voltou para Portugal quinze, vinte anos mais tarde, com vidas profissionais cheias, com estabilidade económica, com a prole bem-criada. E com mais competências e maiores capacidades do que quando saíra. Com os filhos a frequentar boas Universidades, falando línguas, cultivados pela vivência doutros mundos.
Consta-me agora que há por aí uma geração que anda à rasca mas que considera que emigrar para encontrar melhores condições de vida é uma tragédia e que a sugestão para que o faça é um insulto. E tem medo. E protesta. E quer que o Estado (ou seja, o dinheiro dos impostos dos que ainda trabalham) tome conta das suas importantes pessoas e lhe ofereça, aqui, empregos. Empregos. Não é trabalho: empregos! Empregos garantidos, estáveis, bem remunerados. Ao pé de casa. No Estado. Pouco cansativos.
Mal comparado, acho que esta geração tão exigente (com os outros e tão pouco consigo) precisa dum camarada vasco qualquer que a empurre daqui para fora. Para ver se esta gente é capaz de enfrentar a vida. À séria. Como os empurrados de há trinta e tal anos… Ou serão estes enrascados apenas a descendência genética e ideológica dos pc’s de 1975 – dos tais que já nessa altura nem eram capazes de ganhar a vida nem deixavam os outros ganhá-la??
publicado por malcomparado às 10:46

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