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Jan 13
Esta mistura soturna dos setenta e tal anos com o tempo de Inverno faz-me hibernar. Entalado entre a ameaça da bronquite e o ultimato do reumático escolho a lareira, o CM pela manhã, o PC à tarde e à noite (neste momento) as 800 páginas de “Da Alvorada à Decadência” (Jacques Barzun e vale a pena ler). TV, por uma forte razão de prevenção da sanidade mental, nem vê-la: quando muito alguma Premier League, os jogos do Glorioso e chega. O saco do golfe está arrumado até Abril, sair à noite está fora de questão. Deito a cabeça de fora para ir buscar os netos ao colégio três vezes por semana e para a Missa de domingo. E uma vez por mês para ir almoçar com os amigos, compararmos o que foi com o que está e tirarmos conclusões – quase sempre desfavoráveis ao que está…
Nas pausas de tanta tarefa dá-me às vezes para recordar – e malcomparar… O resultado pode ser este.

Foi lá pelo Outono de 1958 que apanhámos aquele hábito. Eu e mais três colegas, amigos depois para a vida inteira. Para trás tinham ficado os três primeiros anos do Técnico, com as Matemáticas Gerais, Cálculo Infinitesimal, Físicas I e II e Mecânica Racional. Depois disso, no 4º ano, os Materiais de Construção e a Mecânica dos Solos eram de uma simplicidade enternecedora...Nos corredores os contínuos já tratavam os quartanistas vaidosos que nós éramos por Senhor Engenheiro – a felicidade estava à vista!
E apanhámos então aquele hábito: umas, duas vezes por semana, lá pela uma da manhã, depois de digerir as sebentas do dia na Rua do Século, descíamos até à Praça da Alegria e íamos tomar uma cerveja à Márcia. A Márcia era uma "casa de fados" que servia jantares, ambiente meio castiço meio familiar, três cantadeiras e um fadista, à guitarra Francisco Carvalhinhos, à viola Pais da Silva. Consumo mínimo, 50$00. Mas para nós uma cerveja eram 5 paus, uma bica 2$50 se estávamos mais tesos.
À hora a que chegávamos já o reportório estava cantado, os poucos turistas arrumados e a freguesia burguesa recolhera a casa. O serviço de mesa era assegurado por umas pequenas em roupas pseudo regionais – às vezes disponíveis para serem levadas a casa depois do fechar da tenda...
Foi aí que em três anos seguidos tirei a licenciatura de fado. Primeiro, em desgarradas com a Teresa Nunes, desafinando o Mouraria; depois, acarinhado pelo Carvalhinhos, em tímidas aventuras a solo, nos fados do Carlos Ramos..."Não te espremas, oh magrinho...Tu não tens voz, canta só com o sentimento! Muito ré menor e sempre baixinho que é p'ra não descarrilares..." "Ré menor? Qual é o ré menor, oh Sôr Carvalhinhos?" "É o único tom em que não desafinas, magrinho...".
Três anos em que, a pouco e pouco, percebi que o fado não era o reportório que se cantava para a freguesia – eram as mesmas melodias e as mesmas letras, mas cantadas por gosto depois das duas da manhã, para os amigos, já com a "massa" feita, enquanto se esperava que a noite deixasse de ser criança...
Passava às vezes um dos "grandes", o Carlos Ramos, o Alfredo Duarte Júnior, com sorte o Marceneiro. Vinha um tinto para a mesa, levantavam-se as vozes de quem punha no fado a razão da sua vida. Não para vender a voz, mas para dar, aos outros e a si mesmos, o quinhão de tristeza, de saudade, de ciúmes, de desilusões e de desgosto que deram forma ao fado.
Em 1961 acabámos os cursos: de Engenharia e de Fado...Fomos às nossas vidas, África esperava por nós, as namoradas também. E mais tarde os empregos, os filhos e os anos que passam tão depressa que não damos por eles e já somos avós...Um de nós quatro já lá vai, era o meu grande amigo, vivemos 49 anos de estreita amizade, de desabafos, de confissões, de projectos, de ilusões e desenganos.

Quando relembro tudo isto – os anos 50, o curso, os amigos, as cervejas na Márcia, os namoros de então (tão diferentes dos de hoje!) – sinto correr no sangue uma saudade de um tempo tranquilo, bem melhor e (mal comparado com o de agora) mais feliz.
publicado por malcomparado às 23:36

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