24
Jul 12
No verão de 1975, empurrados pelo PCP através da correia de transmissão das comissões de trabalhadores, saíram de Portugal cerca de quarenta mil quadros superiores e médios. De todos os sectores: do primário (graças à euforia revolucionária da reforma agrária que tantos progressos trouxe à agricultura nacional); do secundário (pelo saneamento selvagem dos técnicos, deixando nas mãos milagrosas dos operários o planeamento e a correspondente falência das empresas); e do terciário (pela nacionalização da Banca, promovendo os caixas a directores e os sindicalistas a administradores, com os fulgurantes resultados que proporcionaram, alguns anos mais tarde, a visita turística do FMI).
Levando as famílias consigo, para o Brasil, para Espanha, para Inglaterra, para onde puderam, foram mais ou menos cento e sessenta mil (160.000!) pessoas, do melhor que havia em termos de competência e preparação, que abandonaram o País. A essa geração ninguém sugeriu que emigrasse: o PCP forçou-a a emigrar. Segundo Cunhal esses fascistas, lacaios do capitalismo, não faziam cá falta nenhuma.
Foram saindo, preocupados, receosos, mas conscientes de que eram capazes de ganhar a vida em qualquer lado – ao contrário dos pc’s que os tinham expulsado e que na grande maioria não eram capazes de ganhar a vida em parte nenhuma sem a muleta do paizinho Estado… Mas também com algum alívio: já não teriam que aturar as ladainhas esquizofrénicas do camarada Vasco…
Partir para um país estrangeiro, com a família a reboque, uma mão à frente e outra atrás, para recomeçar praticamente do zero, com trinta e muitos anos, com quarenta, uma carreira profissional, sem o apoio dos pais e dos avós que cá ficavam, sem as ligações de profissão e de curso, sem relações pessoais, não era fácil. Passar do andar de cinco ou seis assoalhadas nas Avenidas Novas ou em Belém (e não estou a falar do pessoal de topo…), com criada interna, para um T2 nos arredores de Madrid ou de São Paulo, sem ajudas domésticas, doía. Para as crianças então, tudo era drama: novas escolas, colegas que falavam outra língua, a perda dos amigos, a ausência dos avós e dos tios…
Mas era preciso. E essa gente enfrentou a vida, recomeçou carreiras, trabalhou – e na grande maioria voltou para Portugal quinze, vinte anos mais tarde, com vidas profissionais cheias, com estabilidade económica, com a prole bem-criada. E com mais competências e maiores capacidades do que quando saíra. Com os filhos a frequentar boas Universidades, falando línguas, cultivados pela vivência doutros mundos.
Consta-me agora que há por aí uma geração que anda à rasca mas que considera que emigrar para encontrar melhores condições de vida é uma tragédia e que a sugestão para que o faça é um insulto. E tem medo. E protesta. E quer que o Estado (ou seja, o dinheiro dos impostos dos que ainda trabalham) tome conta das suas importantes pessoas e lhe ofereça, aqui, empregos. Empregos. Não é trabalho: empregos! Empregos garantidos, estáveis, bem remunerados. Ao pé de casa. No Estado. Pouco cansativos.
Mal comparado, acho que esta geração tão exigente (com os outros e tão pouco consigo) precisa dum camarada vasco qualquer que a empurre daqui para fora. Para ver se esta gente é capaz de enfrentar a vida. À séria. Como os empurrados de há trinta e tal anos… Ou serão estes enrascados apenas a descendência genética e ideológica dos pc’s de 1975 – dos tais que já nessa altura nem eram capazes de ganhar a vida nem deixavam os outros ganhá-la??
publicado por malcomparado às 10:46

01
Jul 12
Dei por mim a olhar para o nome de Portugal, na publicidade de uma Agência, como um destino de Turismo...Achei que havia ali uma ironia involuntária. Para nós, que aqui nascemos, Portugal não é um destino. Portugal é o nosso Destino.
Ao nascermos aqui fomos condenados (ou eleitos?) para uma certa forma de vida. Podia ser pior: no meu caso, se tivesse nascido quando nasci mas em qualquer lugar ao Norte dos Pirinéus, teria tido uma infância de guerra, um pai ausente, morto, prisioneiro ou simplesmente destruído, uma adolescência triste. Se tivesse nascido aqui ao lado, tinha apanhado em cheio com uma guerra civil ainda bebé. Visto assim, acho que tive sorte. E não devemos esquecer que se o acaso geográfico nos atirasse a todos para uns 500 km ao Sul, andávamos a vender tapetes no souk de Rabat...Não me parece que fosse grande coisa.
Mas foi aqui: 600 km de alto e 160 de largo, metade montanha, metade planície, 800 e muitos anos de história e uma língua latina, sibilante e difícil a que Gil Vicente e Camões vão dar forma definitiva. Um povo que a teimosia de um Rei tornou independente e que encontrou no Mar a razão e a força dessa independência. Quando a Reconquista acabou e o Rei o foi de Portugal e dos Algarves, éramos fracos demais para incomodar Castela mas suficientemente fortes para não sermos incomodados. Aljubarrota encerra a discussão.
A partir daí, sem poder crescer para terra decidimos crescer para o mar. Navegámos e achámos. Durante um século e meio, do princípio dos 400 ao fim dos 500, desenhámos o mapa do mundo com a proa das naus e das caravelas. Comprámos e vendemos, enganámos e fomos enganados, matámos e morremos.
Dizem agora para aí que a história dos Descobrimentos é feita de violência. Claro que é. No século XVI nem aqui, nem em nenhum lugar, havia espaço para o politicamente correcto: entrava-se nas naus da Índia ou da América para se voltar rico e o modo como se enriquecia era do foro privado de cada um. Partiam dez, voltava um. Era preciso coragem para partir e as discussões ideológicas não se passavam na televisão: quem não estivesse de acordo com os procedimentos em voga podia de repente ver-se na frente da espada de fino aço e de mais da marca de um Senhor com mau génio.
E foi assim que durante esse século e meio Portugal enriqueceu com o comércio das Índias – e gastou tudo alegremente até ao último tostão! Em tecidos finos da Flandres e armas cinzeladas de Itália para os Senhores, em arreios alemães de couro negro revestidos de prata para os cavalos, na embaixada ao Papa para comprar o perdão dos pecados – e no que mais era necessário para o Reino se manter, porque a Índia e a guerra levavam os homens e não havia quem cultivasse os campos. Quando acontece Alcácer Quibir o País está arruinado e sem gente: os tércios de Filipe II de Espanha já não encontram ninguém que lhes faça frente. Portugal morre em 1580 – e Os Lusíadas são um epitáfio.
Em 1640, com a ajuda de Richelieu que procura uma segunda frente na Campanha da Catalunha contra Filipe IV, Portugal recupera a independência política. A identidade nacional resiste, mas por oposição à identidade castelhana, não por afirmação de uma vocação própria. Portugal não tem nada para fazer. Minado intelectualmente pelo fundamentalismo religioso da Inquisição, só o safanão vigoroso de Sebastião José o vai arrancar durante 30 anos da letargia económica e da preguiça intelectual. É pouco – e quando D. José I morre, o primeiro cuidado de Dona Maria é exilar o Marquês e voltar apressadamente ao doce abandono dos lausperenes e das procissões. A partir daí, ignorando o iluminismo setecentista, sem revolução técnica e industrial, Portugal dorme a sesta dos preguiçosos e só acorda para acabar de se suicidar numa guerra civil que o deixa na miséria – mais ainda do que estava, porque além de não ter um real de seu, tem dívidas que nunca mais acabam.
Depois de tudo isto, acham que eu não amo o meu País? Pelo contrário. Pelo sangue e pela língua, pelos meus avós que navegaram nos seus barcos e morreram nas suas boas ou más guerras, pelas Serras do Norte e as lonjuras do Sul, pelo mar do Algarve onde cresceu meu pai, pelas músicas que hoje ninguém canta, pela falta que dele senti quando vivi fora dele, Portugal é a minha Pátria. Quereria que todos a amassem como eu a amo.
Mas é difícil: é difícil amar o que não se conhece e hoje parece haver um esforço deliberado para esconder Portugal dos portugueses. Não se lhes ensina em pequenos os nomes dos sítios onde os seus avós se bateram, nem dos Reis por quem morreram. Nem dos Rios que por ele correm, nem das Serras que o cortam, nem das batalhas que se ganharam ou perderam, nem dos Homens que as fizeram.
A língua é mal aprendida, a música é estrangeira, esconde-se a bandeira e evita-se o hino. Dizem que é para evitar nacionalismos mal vistos. Com tanto cuidado em evitar o nacionalismo, estamos em vias de deixar de ser Nação. Cantamos em inglês, compramos espanhol e pedinchamos em alemão. Um destes dias vamos começar a pensar que tanto faz ter uma bandeira nossa, mesmo verde e encarnada, como outra qualquer, azul com estrelinhas. Os espanhóis nisso são mais cuidadosos. E com tanto governar politicamente correcto, se a bandeira não for azul com estrelas ainda vai ser de sangre y oro e acabamos por chegar ao grande desígnio de D. João II – um único reino na Península. Só que o Rei não será português. Espero já cá não estar para ver.
publicado por malcomparado às 17:57
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