30
Jun 12
Primeiro a Republica tirou-me a bandeira. Apagou o azul e branco que nos servia de guia desde o Rei Afonso para nos cobrir com cores de arraial. Columbano e Botelho tiveram de se adaptar ao gosto refinado dos taberneiros e capelistas da Baixa, grandes ornamentadores dos becos e ruelas com balões de Santo António, e dos sargentos da Carbonária, mais versados nas combinações dos tintos que nas de cores. Olhando para as propostas que por aí circularam desde o 5 de Outubro até à decisão final em Junho de 1911, até podia ter sido muito pior...
Mas o fundamental era dar a Portugal as cores de um Partido - o Republicano.Com o abandono de azul e branco e a adopção das cores do PRP Portugal deixou de ter uma bandeira Nacional para passar a ter, até hoje, uma bandeira político-partidária.
Bem sei que as Armas do Rei foram durante muitos séculos a Bandeira do Reino e que desde a Cruz azul em campo de prata do primeiro Afonso até à bipartida azul e branca de Dona Maria II houve muitas bandeiras, primeiro como armorial do Rei, depois como identificação da Nação. Mas em todas essas bandeiras nunca houve verde e o encarnado aparecia sempre como elemento secundário. Foi preciso a Republica e a sua arrogância partidária para apagar oito séculos de simbolismo.
E se hoje eu respeito (mas não aceito) essa bandeira política que, por ser política, não pode ser nacional é porque as suas cores estão agora tingidas pelo sangue dos soldados caídos nas trincheiras da Flandres e nas picadas de África, mortos debaixo da sua sombra e enterrados com ela.
Depois veio a Democracia. Curiosamente o “governo do povo” serviu para afastar o povo da sua Pátria – com perdão da má palavra... O ensino da História transformou-se num discurso politicamente correcto: em certas versões os portugueses até foram muito maus porque andaram pelo mundo fora a desinquietar, lá pelas Áfricas e pelas Ásias, gentes que estavam muito sossegadas, lá nas suas vidas, e que nós fomos incomodar. Devíamos ter estado quietos e deixado esse desbravar das estradas do mar e do mundo para outras gentes, sei lá, vindo de onde vêem essas ideias, se calhar para russos e chineses… O que é facto é que esse ocultar da História foi diminuindo, escondendo e apoucando a noção de Pátria – com perdão da má palavra… E, depois de a Republica me ter roubado a Bandeira, a Democracia, a pouco e pouco, tem-me roubado a Pátria.
Não é possível amar o que não se conhece e, ao longo destes últimos 30 anos, o regime que felizmente nos governa tem cuidadosamente escondido Portugal, a sua geografia, a sua História e os seus Heróis, dos portugueses – para que eles não o amem.
Desta morte induzida, a Pátria (com perdão da má palavra…) ressuscita de dois em dois anos nas botas do Ronaldo e seus parceiros: e é nos estádios que se canta (mal) um hino que já ninguém aprende e se exibe, como cachecol, a bandeira que, desfraldada à janela de casa, envergonha. Isto não tem nada que ver com o futebol – tem que ver com o seu aproveitamento político para os piores fins: pôr um cachecol ao pescoço não é o mesmo que vestir uma farda de soldado.
Estes últimos cem anos primeiro tiraram a bandeira da Nação e puseram lá a de um Partido; depois apagaram a própria ideia de sermos uma Nação; e finalmente reduziram a Pátria aos golos da selecção!
Há quem diga que tudo isto foi de propósito… Se calhar foi…
publicado por malcomparado às 20:48

22
Jun 12
Com a omnipresença do Euro o futebol entra no nosso quotidiano pelas mais inesperadas portas. Não fujo dele, antes pelo contrário: tenho visto um jogo por dia, às vezes mais um bocado de outro. O que não tenho visto – e recuso-me a ver – são os debates, as reflexões, as previsões e as autópsias dos jogos, feitas em futebolês, com cuidado e saber, pelos mais variados sábios, tantos os encartados que disso fazem vida como os auto didactas curiosos que, por terem alguma notoriedade noutras habilidades, políticas (?) ou artísticas (!) são chamados a debitar lugares comuns sobre um jogo de que só têm um conhecimento de amador. Mas enfim, de médico e louco todos temos um pouco… Suponho que de treinador de sofá também…
O futebol entrou na minha vida pela porta da infância e pela mão de um pai que chegou a ser aquilo que nos anos ’30 do século XX era o mais aproximado de futebolista profissional. Meu pai foi, entre 1927 e 1929, a estrela da equipa do Ayamonte Fútbol Clube, na outra margem do Guadiana e em frente da terra onde nasceu e onde começou a brilhar (enfim, com brilho de província…) no Lusitano Futebol Clube (cuja carreira sigo sempre com interesse e que este ano subiu das Distritais para a 3ª… Uma façanha!).
Nesses dois anos, além de um namoro andaluz, não teve mais ocupação do que jogar à bola e era pago para isso e disso vivia. Instalado no WM da época era o que então se chamava um “half” – ou seja um médio batalhador entalado entre os três defesas e os cinco avançados. A ida para a tropa com a incorporação no Trem Auto, em Lisboa, interrompeu definitivamente a carreira internacional mas lançou-o para o Campo das Salésias e para o Belenenses – do qual foi a partir daí e até à sua morte, aos 101 anos, um adepto entusiasta. Sem esquecer uma antiga simpatia pelo Benfica… Durante mais de três anos foi a alternativa para a dupla internacional César de Matos e Augusto Silva, jogando o campeonato das reservas. Quando se convenceu que não era com a bola que ia ganhar o suficiente para fazer da namorada (não a andaluza mas sim a alentejana que foi a minha mãe) a mulher legítima trocou o Belenenses pelo Batalhão de Sapadores Bombeiros. Onde continuou a jogar, nos Campeonatos da FNAT, até perto dos 40 anos.
Com este pai o futebol tinha de fazer parte do meu ADN. Fui muitas vezes, criança e pela sua mão, aos jogos do Belenenses, nas Salésias. Quando aí pontificavam as Torres de Belém: Capela, Vasco, Feliciano e Serafim, uma defesa de peso e de estatura. Foi aí (sabe Deus porquê…) que me nasceu o amor pelo Glorioso – que na época era simplesmente o Benfica. Nos tempos do Albino e do Gaspar Pinto, do Julinho e depois do Espírito Santo e do Pipi Rogério.
Como jogador o ADN traiu-me: dava para fazer uma perninha com os amigos mas nunca joguei nada de jeito. À baliza, vá lá… Mas com os pés, só cá atrás e mais em força que habilidade.
Mas ficou a atracção pelo jogo, a paixão por uma coisa que não era capaz de fazer mas que me encantava. Rejubilei quando topei com a definição de futebol pela pena de Albert Camus: era “a inteligência em movimento”. Depois, ao longo da adolescência e da juventude, segui, interessei-me, analisei, quis perceber a evolução do jogo. Da táctica, do WM para a diagonal de Otto Glória, depois para o 4-2-4, depois para todas as variantes que andam por aí.
Quando fui a Madrid pela primeira vez na minha vida, com um grande amigo que já cá não está, no fim do ano de 1959, o grande acontecimento do dia era a entrada de Fidel em Havana. O nosso foi ir a Chamartín (ainda não Bernabéu) ver jogar Kopa, Didi, Di Stéfano, Puskas e Gento. Gastámos uma percentagem considerável das poucas pesetas que tínhamos mas valeu a pena. Em Setembro de 1962 casei uma primeira vez. Em plena lua-de-mel, deixei a noiva em Vila Nova de Mil Fontes para ir à Luz ver o Santos de Pelé e Coutinho dar um banho de 5 a 2 ao meu Benfica. Não sei se foi por causa disso mas o casamento só durou um ano…
Hoje só vejo futebol na TV. Não tenho paciência para claques, grosserias e ordinarices. Sofro em casa com o Glorioso e disfruto em casa os jogos da Premier. Com outro grande amigo que não deixa passar em claro o mais pequeno erro de apreciação: o Arsenal é muito da nossa estima e quando, há dias, me zanguei com o Van Persie porque não tinha ido à linha de fundo da ala direita centrar uma bola ganha ao defesa levei uma descompostura: “Manel tu estás a dormir ou a ver o jogo? Para que é que ele ia à linha se não tem pé direito?”. Isto só se consegue ao fim de muito jogo…
publicado por malcomparado às 00:38

11
Jun 12

E eu a pensar que escrevia só para mim!

Pelos vistos tenho de ter mais cuidado com a pontuação...

publicado por malcomparado às 15:48

08
Jun 12

Juntamo-nos uma vez por mês. À quarta-feira mais a meio do mês, à volta da mesa do almoço. Sempre no mesmo sítio, à uma hora, para o mesmo ritual da posta mirandesa regada a branco ou tinto conforme os gostos e as dispepsias. Primeiro uns ovos mexidos com farinheira mas em quantidades homeopáticas. Só para afinar o apetite e esvaziar o primeiro copo. Depois as postas (meias postas, que os anos não perdoam…), tenras, mal ou meio passadas, encharcadas de molho de alhos e coentros em azeite alentejano. Batatas fritas à antiga, em grossos palitos dourados, quentes ainda da frigideira. Com mais uns copos para ajudar à digestão. Depois o arroz doce. E por fim os cafés e (para alguns apenas) o balão de Logan. Às três estamos governados e marca-se a data da próxima quarta feira, para o mês que vem. E vai cada um à sua vida que já não é de trabalho mas mais de netos e de coisas domésticas.

Somos oito. Oito que a vida juntou há muitos anos, na turma do Pedro Nunes ou, para dois de nós, vindos do Camões e do Passos Manuel, nas aulas do Técnico. Temos para trás 60 ou mais anos de amizade que as ausências e separações ao longo da vida nunca atenuaram. Sabemos que podemos contar uns com os outros e que essa é uma das muito poucas coisas com que podemos contar. Cada um foi o que foi: professor catedrático, membro do Governo, grande empresário, alto funcionário, gestor de multinacionais. Todos tivemos em algum momento a ilusão de poder ajudar a melhorar o País. Todos olhamos hoje para trás com a sensação de não ter chegado lá.

Temos origens com grande pluralidade inter social: aristocracia, grande e média burguesia, classe média e, na pele deste vosso servidor, sub proletariado. As nossas mães por um lado e, por outro, o Liceu e os seus professores (recordo Rómulo de Carvalho e Jaime Leote mas não só esses) moldaram nesses diferentes barros os traços de uma geração responsável, com valores bem definidos: Trabalho, apego ao seu País, Respeito pelos outros. Ninguém aqui almoça com dinheiro das off shores…

Para a conversa temos uma regra: é a de não se falar das nossas particulares patologias. Quando no primeiro almoço (já lá vão uns anos) o (mau) estado das próstatas em presença ameaçou tornar-se assunto recorrente decidiu-se fechar de vez a porta a queixumes e a relatórios de deficiências várias. Admite-se o interesse pela saúde de um membro ocasionalmente ausente e por aí nos ficamos.

Quanto ao resto, tudo é possível: a política sempre (temperada por muito cepticismo), mas também o futebol (mas só dentro das quatro linhas para não nos sujarmos), os touros (para os dois castiços), a música (para os dois melómanos) e para todos nós recordações avulso do que foi e do que fomos. E a melancolia de não termos feito mais com a certeza que cada um de nós fez o melhor que sabia em cada instante em que isso foi possível.

Somos oito septuagenários que se orgulham de terem sido o que foram e de terem sido sérios para consigo mesmos, para com aqueles que de nós dependiam e para com a terra que nos viu nascer. Queremos às vezes acreditar que outros septuagenários tomarão um dia os nossos lugares naquela mesa com a mesma consciência tranquila e o mesmo apetite pelas (meias) postas mirandesas…Esperemos que sim: seria bom sinal… 

publicado por malcomparado às 22:15
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04
Jun 12

O futebol acabou, o Euro não começou e neste domingo à noite eu sem nada que fazer acabei p'ra me entreter de aqui à Net vir ter para acabar o serão vou dar uma opinião sobre o que é que há-de ser o que é que me convém outra escolha já não tem quero o professor Marcelo que ainda agora falou e que aos domingos seriamente explica em tom decente tudo o que há p'ra explicar desde o Relvas ao Coelho passando pelo Seguro e com escala no Durão aclara a confusão deixa tudo explicado e com palavras tão fáceis p'ra toda a gente entender o que ao longo da semana não deu para perceber com ele tudo é claro ele é muito convincente e se não houver cuidado acaba por toda a gente estar de acordo porque o jeito é explicar a preceito fazendo a gente supor que o que ele ali nos dizia já a gente bem sabia e que ele só confirmou duma forma mais clara opinião que era nossa donde logo se depreende que temos inteligência que é pelo menos igual à do professor Marcelo e o resultado é tão belo que toda a gente o adora e aceita sem discussão ao domingo a prelecção e agora vou acabar estou numa de Saramago ponham os pontos finais onde mais vos agradar vírgulas à descrição e se alguma vos faltar não faz mal porque é moderno muito jovem muito bem e porque a pontuação nunca fez falta a ninguém

publicado por malcomparado às 22:58
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