20
Jan 12

Por aqui, no malcomparado, o momento presente, só por si, não é o mais importante. A idade dá-nos distanciamento do dia a dia (pelo menos a mim deu-me… aceito que não aconteça com todos…) e ao longo destes 75 anos já assisti, várias, vezes, ao acontecimento do século. Desde a previsão do fim do mundo (umas cinco ou seis, pelo menos), às crises financeiras (acho que vou para aí na terceira e é desde que me ralo com coisas de dinheiro), duas guerras (uma mundial e outra nacional e passo por cima de coisas menores como a Coreia, o Vietname, as Malvinas, os dois Iraques, os Seis Dias, a crise cubana dos mísseis, o Yom Kipur e por agora não me lembro de mais nenhuma destas coisas bélicas que vão mudar o mundo) e várias revoluções, desde Cuba ao 25 de Abril. Não falando no Sputnik e na chegada à Lua. É tudo importantíssimo na altura e é tudo para esquecer logo a seguir.

Em matéria de tecnologia então é de fugir. Quando eu era miúdo o telefone era um mistério e quando eu era adolescente era uma dificuldade: tivemos telefone em casa já eu tinha vinte anos e depois de para aí dois anos de espera – não havia linhas e eram precisas cunhas para não ir para o fim da bicha. A primeira telefonia entrou lá em casa já eu era crescidote (bem sei que era casa de pobres, mas mesmo assim eu já tinha para aí 11 anos). A minha mãe arrefecia a água, no Verão, em bilhas de barro – o frigorífico só era conhecido pelos anúncios e era inatingível da classe média alta para baixo. Tirei o curso do Técnico a fazer contas pela régua de cálculo – hoje uma peça de museu. E nos meus primeiros anos de trabalho enfrentava a hidrologia (que, segundo a própria definição do prof catedrático, era “a ciência de chegar aos resultados pretendidos a partir de quaisquer dados depois de muitas contas”) com uma Facit manual que me fez calos nos dedos da manivela.

Por isso, quando me dizem, nos jornais e ou à mesa com os amigos, que agora é que é, que estamos numa situação gravíssima, eu encaro sempre a situação com alguma reserva e bastante descrença.

Mas parece mesmo que agora é que é: Portugal está quase a morrer de eurite aguda, complicada por anemia orçamental e tuberculose económica. Agora é que vai ser: Portugal acaba e os portugueses, coitados, ou vão definhar na resignação ou sucumbir na revolta inglória.

Por mim, acho que não. Acho que daqui a cinco ou seis anos vamos estar para aí na conversa de café “É pá, tás-te a lembrar que a coisa esteve preta? Até diziam que a malta ia sair do euro, que não ia haver reformas… É pá! Mas a malta lá se safou. Nem foi preciso acabar com o subsídio de desemprego nem nada. Tás ver a Aurora lá da rua? Já tá outra vez a gamar a malta: anda a trabalhar à comissão nos arrendamentos e outra vez a receber do desemprego. Aquela gaja é que sabe disto…”.

Se o País estivesse mesmo na fossa o pessoal não andava preocupado com as telenovelas da maçonaria, do Pingo Doce, das nomeações para a EDP e outras cortinas de fumo que os jornais vão levantando… Andava era desesperado a roubar as padarias – como no tempo do Sr. Afonso Costa, esse benemérito republicano, que esse sim, conseguiu arruinar o País e meter-nos numa guerra com a qual não tínhamos nada que ver. A Flandres, ao contrário de Angola, nem sequer era nossa…

Ora as padarias estão a salvo – a crise não deve ser grande…

Daqui a cinco ou seis anos a gente fala…

publicado por malcomparado às 17:12
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17
Jan 12

Os meus no 75 chegam em Novembro. Nascido em 1937, de pai sapador bombeiro e mãe camponesa emigrada em Lisboa e reciclada em costureira a dias, vivi a infância e a adolescência no 2º período do Estado Novo. O 1º, para mim é o que vai da sua fundação, no plebiscito da Constituição de 1933, até ao apogeu da Exposição do Mundo Português de 1940, de que tenho a memória vaga e confusa de andar no meio de muita gente ao colo de meu pai.

O 2º período, aquele que me marcou, começa com as memórias da guerra e terminará em 1961, comigo já homem feito e curso acabado, com o começo da guerra de África. Foi esse período, com a vivência que nele tive, em casa, na escola, no liceu e finalmente no IST, que me formou para o resto da vida.

A casa era casa de pobres que se esforçavam por viver um pouco melhor. Como não era da classe média fui poupado aos problemas de consciência que a afligiam, nunca tive essa piedade criadora de remorso político que gerou Cunhal e Soares e, mais tarde, Sampaio e Guterres. Todos eles se sentiram culpados por haver uma classe operária, sofredora e explorada, que criava as mais valias de que eles gozavam. Pertencendo ao mundo do sub proletariado, eu não podia ter pena de mim mesmo e muito menos remorsos de explorador. Os amigos lá de casa não eram burgueses envergonhados nem burgueses politicamente ambiciosos: eram bombeiros, polícias, pedreiros, padeiros, criadas de servir. As conversas não eram sobre liberdades políticas nem opções de classe. Eram sobre o preço das sardinhas e das batatas e a única ambição comum a todos eles era a de viver melhor. Numa casa, mesmo pequena, em vez de um quarto com serventia de cozinha. De comprar uns sapatos novos quando os velhos já não aguentassem mais as meias solas. De vestir os filhos sem ser sempre com a roupa do pai, virada e encurtada. Mas, estranhamente, não me lembro de os ouvir culpar o governo pelas suas carências. Antes pelo contrário, quando comparavam com os anos passados, eles viviam melhor. Sobretudo, eles viviam tranquilos. Comentava-se às vezes a desordem “do tempo da Republica” e agora era melhor: podia-se andar na rua sem medo dos tiros, havia trabalho, havia segurança. A minha mãe rezava todos os dias e todos os dias agradecia a Salazar poder criar o seu filho fora da guerra e da política – para ela a política era a desordem. E todos estavam de acordo em que o Salazar nos tinha safado da guerra – ao contrário do Afonso Costa que eu, na altura, nem sabia quem era ou tinha sido.

A escola era a escola pública, no meu caso a 72 da Calçada da Estrela. E a escola era o Professor Romão. Nesses anos de1944 a1948 o Professor Romão teria 50 e poucos anos. Ou seja, teria nascido na década de ’90 do século XIX e teria estado em idade de ser chamado a servir o Exército em 1916 – quando se formou o C.E.P. e o enterraram nas trincheiras da Flandres. E seria homem na casa dos 30 quando Gomes da Costa desceu de Braga. O Professor Romão era um homem de aspecto severo, exigente e de poucas palavras. Não soube nunca a sua cor política, se é que a tinha. Mas todo o seu ensino cumpria com zelo – seria até entusiasmo? – o programa nacionalista do ensino primário do Estado Novo. A escola 72 ficava numa área que hoje seria chamada de pluralidade inter social, com alunos que vinham da aristocracia da vizinha Lapa até aos proletários das transversais à Calçada da Estrela, entre os quais eu. Todos recebemos a mesma atenção e, quando considerado necessário, as mesmas reguadas. Todos fizemos o temido exame da 4ª classe. Todos éramos alunos do mesmo ensino primário oficial – o Estado Novo não fechava a ninguém a porta da escola primária. E quando eu me preparava para seguir para a Escola Comercial o Professor Romão chamou a minha mãe e teve com ela uma séria conversa que desembocou num exame de admissão ao Liceu Normal de Pedro Nunes. Porque o Professor Romão tinha a certeza que o mérito era recompensado no ensino oficial e que eu nunca pagaria propinas porque teria sempre direito à sua isenção, com base na legislação do Estado Novo que assegurava ensino secundário grátis a alunos de Quadro de Honra provenientes de famílias economicamente desfavorecidas. Não desiludi o Professor Romão.

O liceu fez de mim a pessoa que fui para o resto da vida. Por influência dos professores, do reitor, da disciplina e hábitos de estudo a que me obrigou. E por influência dos colegas que ali encontrei e cuja amizade, nalguns casos, dura até hoje. Não direi os seus nomes porque alguns são gente conhecida, mas conhecida pelas suas capacidades profissionais e académicas. Os que se tentaram pela política depois de 1974 já se afastaram – o mundo de arrivistas e oportunistas que os partidos criaram não é para eles. Faço excepção da excepção: um Jorge Sampaio todo fardado com a blusa verde da MP e que depois sentiu a necessidade de se justificar – não sei se perante ele se perante outros. Mas esse ensino virado para o reconhecimento do mérito e do esforço era o ensino do Estado Novo – que produziu do melhor que houve na elite portuguesa do século XX e a partir de todas as classes sociais e não, como hoje se mente descaradamente, só com os filhos dos ricos.

Foi Salazar quem criou o Estado Novo. E com ele um país também novo onde a ascensão social era não só possível mas acarinhada pelo Estado. Estatísticas e números que hoje se começa a ter a coragem de citar provam que o período do Salazarismo foi um dos períodos de toda a vida histórica do País em que Portugal mais cresceu. Falta começar a dizer que, ao contrário da propaganda esquerdista, foi também durante o Salazarismo que Portugal teve um dos seus melhores períodos para ascensão social das classes trabalhadoras. Pela via do estudo e da recompensa ao mérito. E não pela via da sabujice partidária.    

publicado por malcomparado às 13:56

12
Jan 12

Este País tem azar: quem nele manda não leu História ou se leu esqueceu! Uma das mais fortes razões para o declínio intelectual da elite portuguesa foi a expulsão dos cristãos-novos de origem judaica no século XVI, a mando desse prodígio de idiotice e de submissão às ordens vindas de fora que foi D. João III. Culpa da Monarquia, nesse tempo nem sequer declaradamente absoluta? Não. Porque a inteligentíssima e democratíssima república dos nossos dias repete com fervor os mesmos erros. D. João III expulsou os judeus e com eles do que melhor havia no País no conhecimento, no negócio e na fortuna. Para onde foram? Para a Holanda. Esta democracia de hoje não expulsa por decreto mas expulsa por incompetência: na justiça, na fiscalidade, na burocracia. E por fervor, na inveja. Resultado? O mesmo: estamos mandando para a Holanda o melhor da economia que podia ser portuguesa. O Pingo Doce foi quem deu nas vistas mas já lá estão as sedes da maioria do PSI 20. Quinhentos anos e não aprendemos nada!

publicado por malcomparado às 22:24
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