04
Ago 08

 

Ainda na ressaca do poste anterior (eu escrevo estas coisas e fico exausto…) dei comigo a pensar que realmente os feriados que a esquerda celebra como datas que iluminam o caminho dos povos, dias em que finalmente a humanidade andou para a frente, não foram lá grande coisa mal comparado com o resultado que se esperava.
Comecemos pelo princípio de tudo, pelo 14 de Julho. O anuncio: Liberdade, Igualdade, Fraternidade – o Antigo Regime acabava e começava a soberania do povo, justa e clemente. O resultado: o Terror, a guilhotina, o genocídio da Vendeia e para fim de festa os milhares de mortos, franceses, prussianos, russos, ingleses, espanhóis e portugueses das campanhas do Corso. A alegria de 1789 (já com assassinatos à mistura) acabou no horror de 1794 e em Robespierre. Era um prenúncio da tolerância canhota…
 
Passemos à Grande Revolução, aquela que ia libertar os trabalhadores de todo o mundo da escravidão capitalista e pô-los a trabalhar esforçadamente para o bem comum. Tão boas intenções esbarraram na incompreensão de milhares de outros trabalhadores que antes de pensarem no bem comum teórico definido pela nomenclatura do Partido se esforçavam antes por assegurar o bem-estar prático das suas famílias e garantir para si mesmos a liberdade de pensar de forma diferente. Como era de esperar a era de felicidade anunciada pela Grande Revolução descambou no KGB, no Gulag e nos entre cem e duzentos milhões de mortos que o comunismo produziu ao longo do século XX.
 
Deixemos o estrangeiro, passemos à vida local. Temos aí o 5 de Outubro. A gorducha Republica de vermelho barrete frígio e peitos opulentos prometia tudo: a liberdade, a prosperidade, a paz na terra, a abundância, a alegre fraternidade do bom povo republicano. As promessas foram abundantemente cumpridas: Afonso Costa impôs, logo em 1910/1911, a ditadura do seu PRP pela violência na rua, a censura pelo empastelamento dos jornais adversos, a perseguição aos católicos, o silêncio aos sindicatos e a prisão aos monárquicos. A coisa não ia correr bem e felizmente também correu mal ao Sr. Costa, logo na contra manifestação de 26 de Janeiro de 1914, com 200 mortos nas ruas de Lisboa, e por aí a fora até ao 28 de Maio, passando pelo Sidonismo. Não sem antes atirar com a classe etária dos 20 anos em 1917 para o morticínio da Flandres. Guerra bem mais mortífera e desnecessária que a de 1961-74 e feita apenas para benefício político do PRP e do Sr. Costa.
 
Já repararam que as grandes festas da esquerda são sempre para comemorar datas de acontecimentos que iam mudar o mundo (ou mais modestamente um país) para melhor e que invariavelmente conduziram a desgraças de grande dimensão?
 
 Já viram que as revoluções e tomadas de poder da esquerda são sempre para trazer a felicidade aos povos – e acabam invariavelmente por meter uma parte substancial desses povos na prisão ou no caixão. E que as revoluções e tomadas de poder da direita nunca prometem nada a não ser acabar com o caos que a esquerda provocou e pôr alguma ordem na bagunça reinante?
 
Isto dá que pensar, não dá?
 
publicado por malcomparado às 23:42

02
Ago 08

 

No dia 24 de Julho de 1833 as tropas liberais do Duque da Terceira atravessam o Tejo de Cacilhas a Lisboa e entram na cidade entretanto abandonada pelo exército miguelista, receoso de uma sublevação popular. A guerra civil só acabaria em Évora Monte dez meses depois mas o Antigo Regime acabou no dia 24 de Julho. A vitória dos liberais era a vitória da pequena burguesia e os lojistas e artesãos lisboetas viram na data o início de uma nova era de felicidade, prosperidade, liberdade e opulência. Livre da nobreza de sangue, dos morgados, dos desembargadores e das ordens religiosas, Portugal só podia ter à sua frente um radioso futuro. E, amparados na Carta Constitucional, os pequenos burgueses teriam o seu quinhão de poder e as respectivas benesses: empregos na administração do Reino, desde amanuense para os mais pequenos até ministro para os mais ladinos. E quando os bens nacionais (resultantes da espoliação das ordens religiosas) fossem vendidos todos teriam direito ao seu quinhão.
Claro que nada se passou assim: a Carta, com o poder moderador da Rainha e a Câmara dos Pares, garantia o poder à nova aristocracia, aos marqueses e duques saídos da guerra civil – mas nada oferecia ao “povo fiel” que aguentara o miguelismo nem aos oficiais, sargentos e soldados do exército liberal. Pelo contrário: enquanto os “devoristas” (com Palmela à cabeça) enriqueciam desmesuradamente, o “povo” ficava a chuchar no dedo.
O dia 24 de Julho era feriado mas o povo sentia-se enganado.
 
Até 1836 o “povo” – na verdade a pequena e média burguesia que se sentia ultrapassada pelos acontecimentos, com Passos Manuel à frente – esperou a sua oportunidade. A culpa era da Carta e havia que regressar à Constituição radical de 1822. E a oportunidade chegou em 9 de Setembro de 1836, com a popular e gloriosa Revolução de Setembro. Apoiada na plebe de Lisboa e na Guarda Nacional (basicamente plebe armada) a esquerda radical (Passos Manuel e Sá da Bandeira) tomou o poder, obrigou a rainha a jurar a Constituição de 1822 e deu início a uma nova era de liberdade e prosperidade. Em quatro anos já era a segunda era. Só que a esquerda radical, sem a plebe não conseguia ser governo e com a plebe (e as suas contínuas exigências de mais regalias e de mais empregos) não podia governar. O 9 de Setembro chegou a ser feriado mas o setembrismo acabou a 13 de Março de 1838 quando o exército de linha desse governo de esquerda, comandado pelos seus generais heróis da esquerda (Avilez e Bonfim), massacrou no Rossio a Guarda Nacional fazendo várias dezenas de mortos e avultado número de feridos. Passos Manuel dedicou-se a partir daí à agricultura e o feriado do 9 de Setembro desapareceu.
 
A vida, a partir daqui não foi inteiramente pacífica e ainda houve lugar para o Cabralismo e para a guerra civil da Patuleia. Sempre iniciando novas eras de liberdade e prosperidade que infelizmente não se confirmaram. Depois a Regeneração – consequência de um povo exausto de tantas mortes e guerras e de um País totalmente arruinado – trouxe algum sossego. Que terminou em Fevereiro de 1908, com o regicídio, verdadeiro fim da Monarquia. Em Outubro de 1910 os caixeiros de Lisboa deram início a mais uma nova era de paz, prosperidade, liberdade, felicidade e bacalhau a pataco. Que teve momentos altos nos mortos da Flandres e nos assassinatos do 19 de Outubro de 1921.
O povo estava tão feliz com a Republica que fez um acolhimento entusiástico a Gomes da Costa e à Ditadura militar no dia 28 de Maio de 1926. Que foi feriado uma data de anos. O 5 de Outubro ainda é feriado mas presumo que seja por esquecimento
 
Entretanto temos outro feriado a 25 de Abril. Dia que igualmente inaugurou uma época de paz, prosperidade, liberdade e opulência. Dizem…
 
publicado por malcomparado às 23:12

01
Ago 08

 

Difícil mesmo é começar e saber logo à partida que não há nada novo para dizer… Podem-se dizer as mesmas coisas que já foram ditas com mais ou menos graça. Ou de forma empolada para dar assim a ideia que se leram uns livros e se é muito inteligente. Ou meter uns palavrões para se inventar uma cena de descontraído e à vontade. Falar sobre a alma e as angustias da mesma ou sobre futebol ou sobre a lingerie da vizinha. pode-se escrever por exemplo sem maiúsculas: dá logo um ar muito progressista. Ou sem pontuação à Saramago e ficar logo ali na ilusão do Nobel e de que a prosa saiu à maneira muito inteligente prenhe de possíveis interpretações ainda que hermenêuticas e provavelmente distanciadas na ilusão de um tempo ainda não alcançado talvez inatingível mas de qualquer maneira rico de significados esotéricos. Pode-se também escolher com a firmeza dos iniciados o bando da esquerda ou o grupo da direita, esquecer a realidade e bom senso e partir para a zaragata pretensamente política para só defender as ideias do clã – o que desde logo nos dispensa de ter as nossas…
Mas penso enquanto escrevo e continuo a achar que de facto o que estou a fazer não vale a pena. La Bruyère (desculpem lá qualquer coisinha mas estou no meu momento de cultura...) já dizia o mesmo no século XVII: “está tudo dito e eu cheguei tarde”. Foi há pouco tempo? Foi. Mas vamos ter também em consideração (segunda dose de cultura avulso) os Conceitos de Ankhu (Egipto, 1900 a.C.): “Nada tenho para dizer que já não tenha sido dito, nada que os nossos antepassados já não tenham repisado”. E o homem escrevia isto há quatro mil anos mas olhava para um passado, que era o seu, já velho de mais de mil anos.
Realmente esta coisa de escrever não é muito racional… Mas então? Pois é, não é racional, mas é ainda e por enquanto a única forma de nos fecharmos dentro de nós e ao mesmo tempo nos abrirmos para os outros. Por isso lá vai. E cá virei quando puder, como puder, para moldar na palavra o pensamento. O meu.
publicado por malcomparado às 23:16

Agosto 2008
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30

31


subscrever feeds
arquivos
2014

2013

2012

2011

2010

2009

2008

mais sobre mim
pesquisar neste blog
 
Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Nº Visitas
web counter free
blogs SAPO