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No verão de 1975, empurrados pelo PCP através da correia de transmissão das comissões de trabalhadores, saíram de Portugal cerca de quarenta mil quadros superiores e médios. De todos os sectores: do primário (graças à euforia revolucionária da reforma agrária que tantos progressos trouxe à agricultura nacional); do secundário (pelo saneamento selvagem dos técnicos, deixando nas mãos milagrosas dos operários o planeamento e a correspondente falência das empresas); e do terciário (pela nacionalização da Banca, promovendo os caixas a directores e os sindicalistas a administradores, com os fulgurantes resultados que proporcionaram, alguns anos mais tarde, a visita turística do FMI).
Levando as famílias consigo, para o Brasil, para Espanha, para Inglaterra, para onde puderam, foram mais ou menos cento e sessenta mil (160.000!) pessoas, do melhor que havia em termos de competência e preparação, que abandonaram o País. A essa geração ninguém sugeriu que emigrasse: o PCP forçou-a a emigrar. Segundo Cunhal esses fascistas, lacaios do capitalismo, não faziam cá falta nenhuma.
Foram saindo, preocupados, receosos, mas conscientes de que eram capazes de ganhar a vida em qualquer lado – ao contrário dos pc’s que os tinham expulsado e que na grande maioria não eram capazes de ganhar a vida em parte nenhuma sem a muleta do paizinho Estado… Mas também com algum alívio: já não teriam que aturar as ladainhas esquizofrénicas do camarada Vasco…
Partir para um país estrangeiro, com a família a reboque, uma mão à frente e outra atrás, para recomeçar praticamente do zero, com trinta e muitos anos, com quarenta, uma carreira profissional, sem o apoio dos pais e dos avós que cá ficavam, sem as ligações de profissão e de curso, sem relações pessoais, não era fácil. Passar do andar de cinco ou seis assoalhadas nas Avenidas Novas ou em Belém (e não estou a falar do pessoal de topo…), com criada interna, para um T2 nos arredores de Madrid ou de São Paulo, sem ajudas domésticas, doía. Para as crianças então, tudo era drama: novas escolas, colegas que falavam outra língua, a perda dos amigos, a ausência dos avós e dos tios…
Mas era preciso. E essa gente enfrentou a vida, recomeçou carreiras, trabalhou – e na grande maioria voltou para Portugal quinze, vinte anos mais tarde, com vidas profissionais cheias, com estabilidade económica, com a prole bem-criada. E com mais competências e maiores capacidades do que quando saíra. Com os filhos a frequentar boas Universidades, falando línguas, cultivados pela vivência doutros mundos.
Consta-me agora que há por aí uma geração que anda à rasca mas que considera que emigrar para encontrar melhores condições de vida é uma tragédia e que a sugestão para que o faça é um insulto. E tem medo. E protesta. E quer que o Estado (ou seja, o dinheiro dos impostos dos que ainda trabalham) tome conta das suas importantes pessoas e lhe ofereça, aqui, empregos. Empregos. Não é trabalho: empregos! Empregos garantidos, estáveis, bem remunerados. Ao pé de casa. No Estado. Pouco cansativos.
Mal comparado, acho que esta geração tão exigente (com os outros e tão pouco consigo) precisa dum camarada vasco qualquer que a empurre daqui para fora. Para ver se esta gente é capaz de enfrentar a vida. À séria. Como os empurrados de há trinta e tal anos… Ou serão estes enrascados apenas a descendência genética e ideológica dos pc’s de 1975 – dos tais que já nessa altura nem eram capazes de ganhar a vida nem deixavam os outros ganhá-la??
publicado por malcomparado às 10:46

2 comentários:
Comentar \"uma coisa como esta\" seria dar a importancia que o autor deste artigo nao tem nem ira ter nunca.
armandosantos a 24 de Julho de 2012 às 22:35

Obrigado por me ter dado a importância que eu de facto não tenho.
malcomparado a 1 de Novembro de 2012 às 15:24

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