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Jul 12
Dei por mim a olhar para o nome de Portugal, na publicidade de uma Agência, como um destino de Turismo...Achei que havia ali uma ironia involuntária. Para nós, que aqui nascemos, Portugal não é um destino. Portugal é o nosso Destino.
Ao nascermos aqui fomos condenados (ou eleitos?) para uma certa forma de vida. Podia ser pior: no meu caso, se tivesse nascido quando nasci mas em qualquer lugar ao Norte dos Pirinéus, teria tido uma infância de guerra, um pai ausente, morto, prisioneiro ou simplesmente destruído, uma adolescência triste. Se tivesse nascido aqui ao lado, tinha apanhado em cheio com uma guerra civil ainda bebé. Visto assim, acho que tive sorte. E não devemos esquecer que se o acaso geográfico nos atirasse a todos para uns 500 km ao Sul, andávamos a vender tapetes no souk de Rabat...Não me parece que fosse grande coisa.
Mas foi aqui: 600 km de alto e 160 de largo, metade montanha, metade planície, 800 e muitos anos de história e uma língua latina, sibilante e difícil a que Gil Vicente e Camões vão dar forma definitiva. Um povo que a teimosia de um Rei tornou independente e que encontrou no Mar a razão e a força dessa independência. Quando a Reconquista acabou e o Rei o foi de Portugal e dos Algarves, éramos fracos demais para incomodar Castela mas suficientemente fortes para não sermos incomodados. Aljubarrota encerra a discussão.
A partir daí, sem poder crescer para terra decidimos crescer para o mar. Navegámos e achámos. Durante um século e meio, do princípio dos 400 ao fim dos 500, desenhámos o mapa do mundo com a proa das naus e das caravelas. Comprámos e vendemos, enganámos e fomos enganados, matámos e morremos.
Dizem agora para aí que a história dos Descobrimentos é feita de violência. Claro que é. No século XVI nem aqui, nem em nenhum lugar, havia espaço para o politicamente correcto: entrava-se nas naus da Índia ou da América para se voltar rico e o modo como se enriquecia era do foro privado de cada um. Partiam dez, voltava um. Era preciso coragem para partir e as discussões ideológicas não se passavam na televisão: quem não estivesse de acordo com os procedimentos em voga podia de repente ver-se na frente da espada de fino aço e de mais da marca de um Senhor com mau génio.
E foi assim que durante esse século e meio Portugal enriqueceu com o comércio das Índias – e gastou tudo alegremente até ao último tostão! Em tecidos finos da Flandres e armas cinzeladas de Itália para os Senhores, em arreios alemães de couro negro revestidos de prata para os cavalos, na embaixada ao Papa para comprar o perdão dos pecados – e no que mais era necessário para o Reino se manter, porque a Índia e a guerra levavam os homens e não havia quem cultivasse os campos. Quando acontece Alcácer Quibir o País está arruinado e sem gente: os tércios de Filipe II de Espanha já não encontram ninguém que lhes faça frente. Portugal morre em 1580 – e Os Lusíadas são um epitáfio.
Em 1640, com a ajuda de Richelieu que procura uma segunda frente na Campanha da Catalunha contra Filipe IV, Portugal recupera a independência política. A identidade nacional resiste, mas por oposição à identidade castelhana, não por afirmação de uma vocação própria. Portugal não tem nada para fazer. Minado intelectualmente pelo fundamentalismo religioso da Inquisição, só o safanão vigoroso de Sebastião José o vai arrancar durante 30 anos da letargia económica e da preguiça intelectual. É pouco – e quando D. José I morre, o primeiro cuidado de Dona Maria é exilar o Marquês e voltar apressadamente ao doce abandono dos lausperenes e das procissões. A partir daí, ignorando o iluminismo setecentista, sem revolução técnica e industrial, Portugal dorme a sesta dos preguiçosos e só acorda para acabar de se suicidar numa guerra civil que o deixa na miséria – mais ainda do que estava, porque além de não ter um real de seu, tem dívidas que nunca mais acabam.
Depois de tudo isto, acham que eu não amo o meu País? Pelo contrário. Pelo sangue e pela língua, pelos meus avós que navegaram nos seus barcos e morreram nas suas boas ou más guerras, pelas Serras do Norte e as lonjuras do Sul, pelo mar do Algarve onde cresceu meu pai, pelas músicas que hoje ninguém canta, pela falta que dele senti quando vivi fora dele, Portugal é a minha Pátria. Quereria que todos a amassem como eu a amo.
Mas é difícil: é difícil amar o que não se conhece e hoje parece haver um esforço deliberado para esconder Portugal dos portugueses. Não se lhes ensina em pequenos os nomes dos sítios onde os seus avós se bateram, nem dos Reis por quem morreram. Nem dos Rios que por ele correm, nem das Serras que o cortam, nem das batalhas que se ganharam ou perderam, nem dos Homens que as fizeram.
A língua é mal aprendida, a música é estrangeira, esconde-se a bandeira e evita-se o hino. Dizem que é para evitar nacionalismos mal vistos. Com tanto cuidado em evitar o nacionalismo, estamos em vias de deixar de ser Nação. Cantamos em inglês, compramos espanhol e pedinchamos em alemão. Um destes dias vamos começar a pensar que tanto faz ter uma bandeira nossa, mesmo verde e encarnada, como outra qualquer, azul com estrelinhas. Os espanhóis nisso são mais cuidadosos. E com tanto governar politicamente correcto, se a bandeira não for azul com estrelas ainda vai ser de sangre y oro e acabamos por chegar ao grande desígnio de D. João II – um único reino na Península. Só que o Rei não será português. Espero já cá não estar para ver.
publicado por malcomparado às 17:57
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