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Jun 12
Com a omnipresença do Euro o futebol entra no nosso quotidiano pelas mais inesperadas portas. Não fujo dele, antes pelo contrário: tenho visto um jogo por dia, às vezes mais um bocado de outro. O que não tenho visto – e recuso-me a ver – são os debates, as reflexões, as previsões e as autópsias dos jogos, feitas em futebolês, com cuidado e saber, pelos mais variados sábios, tantos os encartados que disso fazem vida como os auto didactas curiosos que, por terem alguma notoriedade noutras habilidades, políticas (?) ou artísticas (!) são chamados a debitar lugares comuns sobre um jogo de que só têm um conhecimento de amador. Mas enfim, de médico e louco todos temos um pouco… Suponho que de treinador de sofá também…
O futebol entrou na minha vida pela porta da infância e pela mão de um pai que chegou a ser aquilo que nos anos ’30 do século XX era o mais aproximado de futebolista profissional. Meu pai foi, entre 1927 e 1929, a estrela da equipa do Ayamonte Fútbol Clube, na outra margem do Guadiana e em frente da terra onde nasceu e onde começou a brilhar (enfim, com brilho de província…) no Lusitano Futebol Clube (cuja carreira sigo sempre com interesse e que este ano subiu das Distritais para a 3ª… Uma façanha!).
Nesses dois anos, além de um namoro andaluz, não teve mais ocupação do que jogar à bola e era pago para isso e disso vivia. Instalado no WM da época era o que então se chamava um “half” – ou seja um médio batalhador entalado entre os três defesas e os cinco avançados. A ida para a tropa com a incorporação no Trem Auto, em Lisboa, interrompeu definitivamente a carreira internacional mas lançou-o para o Campo das Salésias e para o Belenenses – do qual foi a partir daí e até à sua morte, aos 101 anos, um adepto entusiasta. Sem esquecer uma antiga simpatia pelo Benfica… Durante mais de três anos foi a alternativa para a dupla internacional César de Matos e Augusto Silva, jogando o campeonato das reservas. Quando se convenceu que não era com a bola que ia ganhar o suficiente para fazer da namorada (não a andaluza mas sim a alentejana que foi a minha mãe) a mulher legítima trocou o Belenenses pelo Batalhão de Sapadores Bombeiros. Onde continuou a jogar, nos Campeonatos da FNAT, até perto dos 40 anos.
Com este pai o futebol tinha de fazer parte do meu ADN. Fui muitas vezes, criança e pela sua mão, aos jogos do Belenenses, nas Salésias. Quando aí pontificavam as Torres de Belém: Capela, Vasco, Feliciano e Serafim, uma defesa de peso e de estatura. Foi aí (sabe Deus porquê…) que me nasceu o amor pelo Glorioso – que na época era simplesmente o Benfica. Nos tempos do Albino e do Gaspar Pinto, do Julinho e depois do Espírito Santo e do Pipi Rogério.
Como jogador o ADN traiu-me: dava para fazer uma perninha com os amigos mas nunca joguei nada de jeito. À baliza, vá lá… Mas com os pés, só cá atrás e mais em força que habilidade.
Mas ficou a atracção pelo jogo, a paixão por uma coisa que não era capaz de fazer mas que me encantava. Rejubilei quando topei com a definição de futebol pela pena de Albert Camus: era “a inteligência em movimento”. Depois, ao longo da adolescência e da juventude, segui, interessei-me, analisei, quis perceber a evolução do jogo. Da táctica, do WM para a diagonal de Otto Glória, depois para o 4-2-4, depois para todas as variantes que andam por aí.
Quando fui a Madrid pela primeira vez na minha vida, com um grande amigo que já cá não está, no fim do ano de 1959, o grande acontecimento do dia era a entrada de Fidel em Havana. O nosso foi ir a Chamartín (ainda não Bernabéu) ver jogar Kopa, Didi, Di Stéfano, Puskas e Gento. Gastámos uma percentagem considerável das poucas pesetas que tínhamos mas valeu a pena. Em Setembro de 1962 casei uma primeira vez. Em plena lua-de-mel, deixei a noiva em Vila Nova de Mil Fontes para ir à Luz ver o Santos de Pelé e Coutinho dar um banho de 5 a 2 ao meu Benfica. Não sei se foi por causa disso mas o casamento só durou um ano…
Hoje só vejo futebol na TV. Não tenho paciência para claques, grosserias e ordinarices. Sofro em casa com o Glorioso e disfruto em casa os jogos da Premier. Com outro grande amigo que não deixa passar em claro o mais pequeno erro de apreciação: o Arsenal é muito da nossa estima e quando, há dias, me zanguei com o Van Persie porque não tinha ido à linha de fundo da ala direita centrar uma bola ganha ao defesa levei uma descompostura: “Manel tu estás a dormir ou a ver o jogo? Para que é que ele ia à linha se não tem pé direito?”. Isto só se consegue ao fim de muito jogo…
publicado por malcomparado às 00:38

comentário:
1.
Não acho piada nenhuma ao futebol mas das 3 ou 4 vezes que fui ver um jogo a um estádio adorei e parecia que tinha nascido para aquilo.
2.
O meu pai era do Belenenses, o que deve explicar muita coisa acerca deste meu desprendimento
3.
Eu cá não sou de intrigas mas deixar a noiva em plena lua-de-mel para ir à bola é, houvesse justiça neste mundo, razão bastante para o divórcio.

PS
Gosto destas crónicas...
Maria Alfacinha a 29 de Junho de 2012 às 13:05

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