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Jun 12

Juntamo-nos uma vez por mês. À quarta-feira mais a meio do mês, à volta da mesa do almoço. Sempre no mesmo sítio, à uma hora, para o mesmo ritual da posta mirandesa regada a branco ou tinto conforme os gostos e as dispepsias. Primeiro uns ovos mexidos com farinheira mas em quantidades homeopáticas. Só para afinar o apetite e esvaziar o primeiro copo. Depois as postas (meias postas, que os anos não perdoam…), tenras, mal ou meio passadas, encharcadas de molho de alhos e coentros em azeite alentejano. Batatas fritas à antiga, em grossos palitos dourados, quentes ainda da frigideira. Com mais uns copos para ajudar à digestão. Depois o arroz doce. E por fim os cafés e (para alguns apenas) o balão de Logan. Às três estamos governados e marca-se a data da próxima quarta feira, para o mês que vem. E vai cada um à sua vida que já não é de trabalho mas mais de netos e de coisas domésticas.

Somos oito. Oito que a vida juntou há muitos anos, na turma do Pedro Nunes ou, para dois de nós, vindos do Camões e do Passos Manuel, nas aulas do Técnico. Temos para trás 60 ou mais anos de amizade que as ausências e separações ao longo da vida nunca atenuaram. Sabemos que podemos contar uns com os outros e que essa é uma das muito poucas coisas com que podemos contar. Cada um foi o que foi: professor catedrático, membro do Governo, grande empresário, alto funcionário, gestor de multinacionais. Todos tivemos em algum momento a ilusão de poder ajudar a melhorar o País. Todos olhamos hoje para trás com a sensação de não ter chegado lá.

Temos origens com grande pluralidade inter social: aristocracia, grande e média burguesia, classe média e, na pele deste vosso servidor, sub proletariado. As nossas mães por um lado e, por outro, o Liceu e os seus professores (recordo Rómulo de Carvalho e Jaime Leote mas não só esses) moldaram nesses diferentes barros os traços de uma geração responsável, com valores bem definidos: Trabalho, apego ao seu País, Respeito pelos outros. Ninguém aqui almoça com dinheiro das off shores…

Para a conversa temos uma regra: é a de não se falar das nossas particulares patologias. Quando no primeiro almoço (já lá vão uns anos) o (mau) estado das próstatas em presença ameaçou tornar-se assunto recorrente decidiu-se fechar de vez a porta a queixumes e a relatórios de deficiências várias. Admite-se o interesse pela saúde de um membro ocasionalmente ausente e por aí nos ficamos.

Quanto ao resto, tudo é possível: a política sempre (temperada por muito cepticismo), mas também o futebol (mas só dentro das quatro linhas para não nos sujarmos), os touros (para os dois castiços), a música (para os dois melómanos) e para todos nós recordações avulso do que foi e do que fomos. E a melancolia de não termos feito mais com a certeza que cada um de nós fez o melhor que sabia em cada instante em que isso foi possível.

Somos oito septuagenários que se orgulham de terem sido o que foram e de terem sido sérios para consigo mesmos, para com aqueles que de nós dependiam e para com a terra que nos viu nascer. Queremos às vezes acreditar que outros septuagenários tomarão um dia os nossos lugares naquela mesa com a mesma consciência tranquila e o mesmo apetite pelas (meias) postas mirandesas…Esperemos que sim: seria bom sinal… 

publicado por malcomparado às 22:15
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Bom dia,

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Parabéns e boa continuação!

Pedro
Pedro a 11 de Junho de 2012 às 11:08

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